Mio Babbo
06 de maio Por Augusto Branco
Meu pai salvou minha vida, de minhas irmãs
e de outros 6 tripulantes da embarcação que ele comandava.
Eu tinha 8 anos de idade quando isso aconteceu.
O senhor Raymundo tinha acabado de sofrer um golpe.
Amigos dos quais ele foi avalista num financiamento bancário
fugiram sem deixar rastro e sem pagar o banco,
deixando toda a dívida para meu pai,
que pagou tudo sozinho
e ficou praticamente sem recursos para trabalhar.
Para tentar se recuperar financeiramente,
meu pai resolveu empreender numa viagem pesqueira,
e alugou um barco chamado Paulo Afonso,
mas o que deveria ser uma fonte de esperança
revelou-se um grande desafio do início ao fim.
O trajeto que deveria ser feito em uma semana,
acabou sendo feito em 15 dias,
porque apesar da reforma recente,
no segundo dia de viagem
o barco revelou-se cheio de furos no seu casco,
exigindo que parássemos várias vezes
para que meu pai e os marujos pudessem consertá-lo
a fim de evitar que ele naufragasse.
Devido a uma forte seca nos rios da Amazônia naquela época,
também foi necessário cavar canais nos rios algumas vezes
para que pudéssemos passar com a embarcação.
E houve até mesmo um momento
em que o barco teve que ser consertado enquanto navegava, pois se atracasse na beira do rio,
a embarcação ficaria encalhada e não conseguiríamos sair.
Foi uma verdadeira corrida contra o tempo
para evitar que o barco naufragasse
enquanto ele era consertado em pleno movimento.
No último dia de viagem, após tantos desafios vencidos,
já comemorávamos por saber que faltava menos de 8 horas
para chegar ao destino final,
na cidade de Lábrea, no Amazonas.
Porém, enquanto eu e minhas irmãs dormíamos,
o maquinista da embarcação colocou um tambor de combustível
perto da descarga quente do motor
que ficava na parte de trás do barco,
e o resultado foi o início de um incêndio.
O fogo alastrou-se rapidamente pela cozinha,
pela dispensa do barco
e logo chegaria à sala de máquinas,
o que certamente resultaria numa explosão.
A embarcação tinha dois pisos.
O comando e o camarote ficavam no andar de cima,
então o maquinista gritou ainda lá de baixo
avisando que o barco estava pegando fogo.
Meu pai imediatamente deixou o comando com seu auxiliar
e desceu para ver o que acontecia,
enquanto dois marujos pulavam no rio.
Rapidamente meu pai percebeu que o barco
estaria prestes a explodir,
lembrou que eu e minhas irmãs estávamos dormindo lá em cima
e não pensou duas vezes: lançou-se no meio das chamas
e com a força de um gigante
lançou dois tambores com 200 litros de combustível em chamas dentro do rio, salvando a todos nós.
Passado o perigo, os marujos subiram para nos acordar
falando que nosso pai estava morrendo.
Ele havia sofrido queimaduras de terceiro grau por todo o corpo,
e faltava ainda 3 horas de viagem.
Ver nosso pai agonizando no convés da embarcação
foi uma das cenas mais dolorosas que já presenciei na minha vida.
Sequer podíamos abraçá-lo,
porque isto causaria ainda mais dores a ele.
Ao nos ver, com uma lágrima nos olhos ele sorriu.
Estávamos todos vivos.
Graças a ele.
E ele ainda garantia que iria ficar tudo bem.
E ficou tudo bem. ![]()
*Em memória de Raymundo Soares de Souza, mio Babbo.