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As batatas

06 de maio Por Augusto Branco

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As batatas
Certa vez, viajei com meu pai até a cidade de Manaus
onde ele pretendia vender batatas e cebolas no atacado
para feirantes e mercados de lá.
Os produtos eram transportados de barco,
e deveriam ir em cima do convés,
porém a ganância do dono da embarcação
fez com que ele transportasse as batatas e cebolas de meu pai

dentro do porão a fim de que ele pudesse levar mais carga no convés.

O resultado disso foi que as batatas e as cebolas que meu pai levava apodreceram devido a umidade do porão do barco
lhe causando grande prejuízo.
Eu sabia que meu pai estava muito endividado

e que aqueles produtos haviam sido comprados no crediário, inclusive. Ou seja, ele iria pagar com o dinheiro da venda, e agora praticamente não teria o que vender.

Quando vimos as batatas estragadas sendo desembarcadas no porto de Manaus, meu pai ficou pálido, triste.
Ele foi reclamar com o dono da embarcação, mas ele rudemente disse que se meu pai quisesse que os produtos dele fossem sempre transportados no convés, ele que alugasse uma balsa!

Naquele momento, o meu sangue ferveu. Eu quis partir pra cima daquele cara, mas meu pai me deteve. Já distante, ele disse que não era pra eu sujar minhas mãos com bosta daquele tipo.

Para tentar salvar parte dos produtos, meu pai contratou algumas pessoas para ajudar a lavar as batatas e as cebolas. De 1000 fardos, ele esperava salvar ao menos 300 fardos a fim de diminuir os prejuízos.

Eu e ele estávamos ajudando os demais trabalhadores a lavar as batatas e as cebolas, e quem já sentiu cheiro de batata podre, sabe que é preciso ter muito estômago para suportar aquela podridão.

Após quase 6 horas de trabalho, já perto da meia-noite, eu percebi um movimento de pessoas do lado de fora do galpão em que estávamos lavando as batatas e as cebolas. Passavam com sacolas e panelas em direção à lixeira do galpão, onde estávamos jogando as cebolas e as batatas podres.

Eu parei por um momento e fui confirmar minhas suspeitas: de fato, havia ali cerca de 50 ou 60 pessoas que estavam catando as batatas podres para comer. Senti uma pontada no meu coração de tanta tristeza, e ao olhar para trás, vi meu pai que me perguntou quantos fardos nós tínhamos conseguido salvar. Eu falei que tínhamos conseguido salvar apenas 84 fardos até então, e que eu achava que não conseguiríamos salvar nem 100 fardos de batata. Das cebolas, só haviam sido salvos 28 fardos. Foi aí que meu pai assoviou forte e chamou os catadores lá da lixeira e disse ‘venham pra cá; aqui tem batatas boas pra vocês!’

As pessoas olhavam umas para as outras sem acreditar no que ouviam. Os trabalhadores que lavaram as batatas sorriam entre si, enquanto meu pai repetia: tragam suas sacolas e panelas, aqui tem muitas batatas. Chamem seus amigos também!

E assim ficamos até às duas horas da manhã doando batatas para todos que chegavam. Eu estava muito feliz com o que eu via meu pai fazer, mas como eu estava preocupado com as dívidas dele eu ainda lhe perguntei como seria dali pra frente. Ele apenas disse que iria dar um jeito; disse que aquelas batatas não deixariam ele mais rico nem mais pobre, mas naquela noite ao menos aquelas batatas ajudariam a matar a fome de muita gente.
😢

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