As lágrimas de Deus
06 de maio Por Augusto Branco
Quando criança, perguntei à minha avó por que chovia e minha avó, cabocla muito religiosa,
disse que a chuva caía sempre que Deus estava zangado e que os raios e trovões eram sua ira
por conta dos pecados dos homens.
Assim sendo, devíamos rezar e pedir perdão a Deus por nossos pecados toda vez que chovia.
Eu passei a seguir os conselhos de minha avó
e toda vez que chovia eu colocava-me de joelhos ao pé da cama rezando e pedindo perdão por todos os pecados
que uma criança de cinco anos de idade pode ter até que uma vez minha mãe notou o que eu fazia e veio perguntar-me a razão de meu proceder.
Eu lhe expliquei o que minha avó tinha dito, ao que minha mãe sorriu docemente
dizendo que não era bem assim,
que na verdade meus pecados eram muito pequenos e que a chuva eram as lágrimas de Deus, sim,
mas não era porque Deus estava zangado,
mas porque Ele ficava muito triste com os pecados de homens realmente muito maus.
Mas que homens eram estes, eu quis saber, e minha mãe explicou
que eram os ladrões e os assassinos, principalmente, que faziam mal às pessoas
e deixavam Deus muito triste
e que por isso Ele chorava daquele jeito.
Foi aí que pensei que não era justo que Deus ficasse chorando tanto por gente que não valia a pena
e quis escrever uma carta para Ele, pedindo para Ele parar de sofrer assim.
Minha mãe ajudou-me a escrever a primeira carta,
que ia cheia de desenhos com sóis, estrelas, flores e corações que colocamos sob a água da chuva
e assim se entendia que tinha sido entregue.
Não demorou muito e a chuva passou,
fazendo com que no meu entendimento de criança
eu pensasse que eu tivesse conseguido consolar a Deus.
Daí por diante, toda vez que chovia,
eu colocava-me a escrever cartas para Deus,
tarefa à qual eu só finalizava quando cessava a chuva.
Mas um dia começou a cair uma chuva muito forte, daquelas que deixam o dia feito noite.
Deus devia estar terrivelmente triste.
Eu apanhei meu caderno de desenhos
e coloquei-me a desenhar incansavelmente. Mas a chuva não passava nunca!
Acabei adormecendo sobre os papéis.
No dia seguinte, ao acordar,
vi que ainda estava chovendo.
Naquele momento eu me desesperei.
Peguei uma resma de papel
e fui para a varanda mandar cartas para Deus, mas o vento e o piso molhado
fizeram com que minhas folhas em branco caíssem na água, e agora eu não podia fazer mais coisa alguma.
Minhas forças se acabaram,
deixei-me cair aos prantos no chão, soluçava de tanto chorar.
Foi neste momento que meu pai apareceu na varanda, e vendo-me naquele estado, foi carregar-me.
O que houve, meu filho? Por que você chora assim? Eu não conseguia responder,
balbuciava uma ou duas palavras,
mas consegui dizer que era por causa de Deus.
– Mas o que há com Deus, meu filho?
– Ele está muito triste, não para de chorar, não tá vendo?!
– Deus? Chorando? Quem te disse isso?
– Claro que está chorando, olha essa chuva aí, ó! E nisso meu pai acabou sorrindo.
– Ô, meu filho, você acha que a chuva é o choro de Deus?
Não, filho… A chuva não é o choro de Deus, não. Pelo contrário, a esta hora ele está muito é alegre, se divertindo lá em cima,
jogando água em cima nós, que estamos aqui embaixo!
E nisto, meu pai carregou-me pra baixo da chuva e começou a cantarolar comigo em seus braços. Eu fiquei revoltado com aquilo.
Cheguei a dar uns tapas no ombro de meu pai para ele me colocar no chão.
Mas ele continuava dançando e cantando na chuva, chutando a água e me levando para baixo da biqueira.
E era tanta a alegria de meu pai,
que era impossível não se deixar contagiar por ele.
Logo eu estava também com ele a correr e a brincar sob a chuva.
Ele pegava-me pelos braços e girava-me no ar, enquanto minha mãe chamava-nos para o almoço, mas nós nem ligávamos.
Nós poderíamos passar o tempo inteiro assim, a vida inteira assim,
brincando e correndo sob a chuva, esperando que a chuva nunca parasse, que nunca cessasse,
que nunca se acabassem as lágrimas de Deus.
Em memória de meu pai, senhor Raymundo Soares.